A ideia inicial era um disco solo. Virou dupla. O que seria o terceiro álbum autoral de Jorge do Batuke se transformou no primeiro de Os 2 de Azul e Branco, projeto que ele divide com Márcio Carvalho e que chega com o lançamento de “Samba em Quatro Atos”.
Tudo começou antes, com três sambas de terreiro compostos juntos, longe da disputa de samba-enredo. A virada veio com “Majestade”. Jorge tinha a primeira parte – letra e melodia – e chamou Márcio para fazer a segunda. Deu certo. A partir dali, as faixas já adiantadas em estúdio por Jorge foram reaproveitadas e o repertório foi ampliado para quatro co-autorias, além de composições individuais e duas obras de parceiros.
O propósito ficou claro: formalizar uma dupla de cantores e compositores de samba, algo raro no gênero, e dedicar o repertório ao universo do samba de terreiro, ao povo do samba e à Portela.

Márcio Carvalho e Jorge do Batuke
Um inventário de dez anos
Com 14 faixas autorais, o disco funciona como arquivo pessoal. Jorge explica a escolha:
“Depois do meu segundo álbum, achei que era hora de documentar tudo o que fiz nos últimos dez anos. Muita gente me conhece das disputas de samba-enredo, mas o samba-enredo nunca foi a minha prioridade. Minha prioridade sempre foi o samba de raiz, o samba de terreiro.”
As referências, segundo ele, vêm de Monarco da Portela, Edir e Argemiro Patrocínio.
Para Márcio, o formato é parte da mensagem: “A gente já tinha algumas músicas em coautoria e surgiu a ideia de fazer um projeto em dupla, que não se vê há muito tempo. A última grande dupla foi Arlindo Cruz e Sombrinha.”
Além do material próprio, o álbum traz uma composição de Franco Cava, Muri e Arnaldo Ripel e “Fim de Semana em Madureira”, feita com Luiz Henrique do Império durante a pandemia.
A canção mais marcante para Jorge é “Sonhando com Paulo”: “É a história de uma pessoa que sonhou com o Paulo da Portela, algo que já aconteceu comigo e deu origem ao samba ‘Oração’. Mexe com a minha identidade e com a de todos nós que somos herdeiros de Tia Ciata.”

Gravado aos poucos
O disco começou na pandemia, entre isolamento, duas disputas de samba na Portela e orçamento curto.
“Fazer um álbum é muito gostoso, mas tem que dosar os recursos. O mais difícil foi a questão financeira“, contam.
Lançar um álbum completo hoje, avaliam, é nadar contra a corrente. “Hoje as pessoas estão no single, no EP. A gente está indo na contramão do mercado, onde as músicas estão muito descartáveis“, diz Márcio.

Jorge do Batuke
“Mas quem é saudosista e gosta de samba de raiz vai gostar. Deem uma chance para o Samba em Quatro Atos“, completa Jorge.