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HISTóRIAS de famosas expõem dor com a comida e Valeska Magaldi traz olhar clínico
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Demi Lovato, Gabriela Pugliesi, Jane Fonda e Yasmin Brunet já tornaram públicas experiências de perda de controle ao comer, sofrimento com o próprio corpo e dificuldades que nem sempre são percebidas por quem acompanha suas carreiras. Embora tenham histórias e quadros diferentes, seus relatos chamam a atenção para um problema frequentemente reduzido à falta de disciplina. Demi contou que comia compulsivamente desde a infância e enfrentou bulimia. Jane descreveu, em suas memórias, episódios de compulsão seguidos de vômitos provocados, comportamento que manteve em segredo durante anos. Nos dois casos, os episódios faziam parte de uma história de bulimia, que precisa ser diferenciada do Transtorno de Compulsão Alimentar.
No Brasil, Gabriela Pugliesi revelou que seguia uma alimentação extremamente restritiva durante a semana e, nos fins de semana, comia em excesso. Em um depoimento publicado em 2021, a influenciadora associou essa relação com a comida à comparação com outras pessoas e à pressão sobre o corpo. Yasmin Brunet também falou sobre compulsão alimentar durante o BBB 24 e, posteriormente, no programa Encontro, quando explicou que comer lhe proporcionava uma sensação de acolhimento. São relatos pessoais que ajudam a dar visibilidade ao sofrimento, mas não permitem atribuir o mesmo diagnóstico a todas elas.

Yasmin Brunet contou de seus problemas com comida durante sua participação no BBB 24
As consequências podem atingir a saúde física e emocional. O Transtorno de Compulsão Alimentar envolve episódios recorrentes de ingestão de grandes quantidades de comida com sensação de perda de controle, frequentemente acompanhados de vergonha, culpa e desconforto. Pode estar associado a obesidade, diabetes tipo 2, problemas cardiovasculares, alterações do sono e sintomas gastrointestinais. Na bulimia, os comportamentos compensatórios acrescentam riscos como desidratação, desequilíbrio de eletrólitos e desgaste do esmalte dos dentes. Ansiedade e depressão também podem coexistir com transtornos alimentares.
É o sofrimento por trás dessa relação com a comida que a psicóloga Valeska Bassan Magaldi aborda em seu primeiro livro, Segunda-feira eu começo: a dor da compulsão alimentar e o caminho real para sair dela, publicado pela EV Publicações. Especialista em transtornos alimentares e obesidade, ela reúne mais de quinze anos de prática clínica com essa população, incluindo treze anos de atuação no Ambulim, o Programa de Transtornos Alimentares do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.
Para Valeska, a promessa de começar uma dieta na segunda-feira pode representar uma tentativa repetida de reparar um episódio de compulsão. “Depois de um episódio de compulsão, geralmente vêm a culpa e a sensação de fracasso. A tentativa de reparar o que aconteceu costuma ser restringir ainda mais a alimentação”, explica. O problema, segundo ela, é que o controle rígido pode contribuir para a continuidade do sofrimento. “O problema é que a restrição não necessariamente resolve a compulsão. Muitas vezes, ela ajuda a manter o ciclo.”
A psicóloga ressalta que compreender o comportamento exige olhar para além da quantidade de comida. “Muitas vezes, ela também ocupa uma função emocional. Pode aparecer como conforto, recompensa, anestesia, alívio para uma angústia ou simplesmente como uma forma que aquela pessoa encontrou para lidar com o que está sentindo.” Por isso, o cuidado não pode se limitar a cobranças por autocontrole. “Enquanto tratarmos a compulsão apenas como um problema com a comida, estaremos olhando somente para a parte mais visível da questão.”
Outro ponto central é a diferença entre obesidade e compulsão alimentar. As condições podem coexistir, mas uma não determina a outra. “Nem toda pessoa com obesidade tem compulsão alimentar, e nem toda pessoa com compulsão alimentar tem obesidade”, afirma Valeska. Quando ambas estão presentes, ela defende uma abordagem integrada, individualizada e, sempre que possível, multidisciplinar. “Uma pessoa pode perder peso e continuar sofrendo com a comida. Pode emagrecer e continuar com culpa, medo de engordar, episódios de perda de controle e uma relação extremamente difícil com o próprio corpo.”

“Enquanto tratarmos a compulsão apenas como um problema com a comida, estaremos olhando somente para a parte mais visível da questão”
A discussão também alcança os medicamentos injetáveis utilizados no tratamento da obesidade. Valeska reconhece sua importância quando bem indicados e acompanhados, mas alerta para a necessidade de avaliar o comportamento alimentar durante o tratamento. “Diminuir a fome ou comer menos não significa, necessariamente, tratar o transtorno alimentar.” Para ela, a redução do peso não deve ser o único parâmetro de melhora quando permanecem questões emocionais e sofrimento na relação com o corpo.
O julgamento de familiares e conhecidos pode dificultar a busca por ajuda. Segundo a psicóloga, frases que atribuem o problema à falta de força de vontade reforçam a vergonha e a sensação de fracasso. “A culpa e a vergonha vão aumentando, e isso pode fazer com que a pessoa esconda o que está acontecendo e demore ainda mais para procurar tratamento.” A orientação é substituir a fiscalização por escuta e apoio. “A família pode oferecer escuta, acolhimento e incentivo para a busca de tratamento. Pode perguntar ‘como eu posso te ajudar?’ em vez de dizer ‘você precisa se controlar’.”
Dividido em quatro partes e 17 capítulos, o livro foi escrito para pessoas que vivem com compulsão alimentar, familiares e profissionais de saúde. A obra apresenta situações clínicas fictícias, construídas a partir de experiências recorrentes no consultório, e discute psicoterapia, psiquiatria e nutrição especializada. Também aborda cirurgia bariátrica, reganho de peso, gordofobia, cultura da dieta, redes sociais e o uso de assistentes virtuais, sem propor que essas ferramentas substituam o atendimento profissional.
A relação entre comida e emoções também atravessa a história familiar da autora. Na família materna, de origem italiana, os alimentos estavam presentes nas celebrações e nos momentos de consolo, enquanto as oscilações de peso se repetiam entre parentes. Ao longo da formação e da experiência clínica, essas observações ganharam novos significados e ajudaram a construir a proposta de aproximar o conhecimento especializado do público.

Acompanhamento profissional é essencial no tratamento de problemas com a comida
“Existe tratamento e existe possibilidade de recuperação”, afirma Valeska. Para ela, recuperar-se significa construir uma relação diferente com a comida, com o corpo e consigo mesmo. “Se o leitor terminar o livro entendendo que compulsão alimentar não é falta de caráter, obesidade não é falta de força de vontade e pedir ajuda não é fracassar, acho que uma parte muito importante do objetivo deste livro terá sido cumprida.”
O lançamento de Segunda-feira eu começo: a dor da compulsão alimentar e o caminho real para sair dela está marcado para 10 de novembro de 2026, às 19h, no Vila Hermosa Bistrô, na Rua Clodomiro Amazonas, 858, Vila Nova Conceição, em São Paulo.
A autora compartilha informações sobre seu trabalho no Instagram @psicologavaleskamagaldi.
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